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FOTOGRAFIA
ABSTRATA
Rinaldo Morelli
Para se entender a fotografia abstrata é preciso compreender a
interpretação do real feita pelos fotógrafos através dos tempos. O olhar
sobre o mundo, feito pela fotografia, em um primeiro momento, meados do
século XIX, foi um continuísmo da maneira como a pintura representava não
só a sociedade, seus personagens, a natureza, enfim, o mundo real.
Para se entender a fotografia abstrata é preciso compreender a
interpretação do real feita pelos fotógrafos através dos tempos. O olhar
sobre o mundo, feito pela fotografia, em um primeiro momento, meados do
século XIX, foi um continuísmo da maneira como a pintura representava não
só a sociedade, seus personagens, a natureza, enfim, o mundo real.
A fotografia nasce com sua linguagem atrelada à função social que a
pintura desempenhava naquela época. Assim a linguagem, neste momento, não
só se utiliza da composição oriunda da pintura, como também apresenta-se
empenhada em representar a realidade tal qual ela se apresentava.
O movimento chamado pictorialismo é o maior exemplo dessa ligação inicial
da fotografia com a pintura.
Por meio de várias formas de manipulação da imagem fotográfica, o
fotógrafo procurava inserir a fotografia no universo das artes visuais, ao
mesmo tempo distanciando da então compreensão do que seria uma imagem
fotográfica e, aproximando-a da linguagem pictórica.
Com o desenvolvimento da tecnologia, os equipamentos tornaram-se mais
leves e as emulsões mais rápidas, permitindo uma maior mobilidade do
fotógrafo, facilitando assim, a busca por ângulos inusitados e recortes
que fugissem da intenção de representação fiel da realidade.
Um momento importante é movimento do construtivismo russo, já no início do
século XX. Não por acaso, neste momento estava nascendo a pintura
abstrata. Alexander Rodchenko, e László Moholy-Nagy, principalmente,
ampliaram as possibilidades
da fotografia, incutindo no fotógrafo o desafio de mostrar o mundo de uma
forma diferente e inusitada. Enriquecendo o imaginário fotográfico,
Rodchenko e Moholy-Nagy, iniciaram, a meu ver, a história da fotografia
abstrata, propondo novos ângulos em imagens que con contribuíram para o
abstracionismo na fotografia.
Com os surrealistas, representados na fotografia principalmente por Man
Ray, a fotografia abstrata conquista seu espaço. May Ray, inclusive
assessorando Marcel Duchamp em alguns de seus trabalhos, propõe novos
elementos estéticos na fotografia, fugindo do figurativo e mergulhando em
um universo fotográfico descompromissado com a representação da realidade.
May Ray retoma a técnica criada por Henry Fox Talbot, no início da
história da fotografia, rebatizando-a de Rayografia, técnica hoje
conhecida por fotograma. A idéia é colocar objetos diretamente sobre o
papel fotográfico, no laboratório, sem o uso do negativo, pesquisando
composições abstratas em ricas gradações de cinzas, luzes e sombras.
As fotografias aéreas, em alguns casos, são imagens abstratas, pois as
referências do mundo real se dissolvem, assim como nas fotografias feitas
por microscópios.
Interessante notar que, segundo Phillipe Dubois(1), El Lissistsky e
Kasimir Malévitch, pintores do movimento artístico chamado Suprematismo,
se inspiraram em fotografias aéreas para produzirem suas imagens
abstratas.
Aqui quero fazer um pequeno paralelo entre a fotografia abstrata e a
pintura abstrata. Para Meyer Schapiro(2), ao contrário do que alguns dizem
sobre a pintura abstrata, esta não é fruto de um excesso de racionalismo e
ausência de sentimentos, é sim, o
ápice da dimensão humana no processo criativo. É no abstrato que o artista
coloca todo o seu potencial para criar uma imagem que não traga em sua
percepção referência de figurativo. Faço uma comparação com a fotografia
abstrata, com a ressalva que sem o referente real a fotografia não existe.
A fotografia traz consigo, sempre, um rastro do real, definida por alguns
como uma imagem de natureza indicial. Isto coloca a fotografia abstrata em
uma situação de ambigüidade. Ao mesmo tempo que procura negar uma
representação figurativa da realidade, por outro lado, até por sua gênese
por projeção luminosa sobre a material fotossenssível, não pode nascer
desassociada de algo real que esteve diante da câmera.
Há também um desafio que o fotógrafo se impõe de ser original, fruto do
bombardeamento não só de fotografias mas também de todos os tipos de
imagens, sempre na busca de ter em suas fotografia uma abordagem diferente
nunca antes vista. Isto o instiga na procura por abstrair o real, e propor
imagens que mesmo geradas a partir de referentes reais ao mesmo tempo
negue este mesmo real.
O resultado é um conjunto de fotografias abstratas que ao mesmo tempo em
que nos remetem ao digital, demonstram também as muitas possibilidades da
fotografia explorando apenas o recorte da realidade que nos cerca. São
imagens que partem de um mundo real e negam, ao mesmo tempo, sua ligação
com referentes deste real.
Na exposição Composições, o abstracionismo está em uma total negação ao
figurativo. As fotografias não têm foco, dificultando ainda mais o
reconhecimento do referente. São massas de cor, com seus limites diluídos,
distribuídas pelo retângulo em uma pesquisa estética de composições.
Não sei se interessa saber a partir de qual objeto foi feita uma
fotografia abstrata. Mas para o espectador, em geral, isto é importante,
pois a fotografia traz esta ligação indissociável com o real. Como é
fotografia então há um objeto para onde a máquina fotográfica esteve
apontada por um átimo de segundo que seja. É a ambigüidade do
abstracionismo na fotografia. Prefiro que o julgamento do resultado não
esteja condicionado ao conhecimento de qual porção do real aquela imagem
partiu, mas espectador é livre em suas considerações e julgamento.
O abstrato nega o figurativo, e de certa forma nega o real, isto instiga o
fotógrafo. Uma vez em exposição o fotógrafo quer mostrar do que foi capaz
e faz um desafio ao espectador: Será capaz de julgar a imagem sem precisar
saber a partir do quê foi feito aquela fotografia?
E-mail
morelliri@ig.com.br
Site
http://www.rinaldomorelli.com
Natural de São Paulo, formado em Artes Plásticas, Mestre em Arte e
Tecnologia pela Universidade de Brasília-UnB. Fundador do grupo Ladrões de
Alma em 1988, sub-Coordenador de Fotografia do II Festival
Latino-Americano de Arte e Cultura em 1989.
Fotógrafo da EMATER-DF entre 1992-97. Professor de Fotografia na
Universidade de Brasília de 2002 a 2004. Atualmente, repórter fotográfico
da Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Algumas Exposições:
Coletivas: 24x17, 1988(Grupo Ladrões de Imagens), Reincidentes,
1989(Ladrões de Alma), Cotidiano do Trabalhador,Graz-Áustria,1993;Moments
of Intimacy, Laughter and Kinship, New York, 2001; Lugar Loquaz,FotoArte
2004; Quase Coisas, FotoArte 2005 e FotoRio 2005.
Individuais: Escadas, fragmento do tempo e espaço; Candângulos.
http://www.fotografiacontemporanea.com.br
1 DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. Campinas, SP.
Papirus, 1994.
2 SCAHPIRO, Meyer. Mondrian-a dimensão humana da pintura abstrata. São
Paulo-SP, Cosac & Edições, 2001.
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