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REFLEXÕES DE UM
ARTISTA PLÁSTICO
Almandrade
*Francisco Antônio Zorzo*
Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana
Para melhor podermos apreciar a produção ensaística de Antônio Luiz M.
Andrade, Almandrade, foi publicada, finalmente, a coletânea de seus
artigos. Estampada com o título de "Escritos sobre Arte".
Graças à publicação, pode-se perceber o alcance da contribuição de
Almandrade e destacar algumas das principais articulações do conjunto
de ensaios. É digno de nota, desde logo, indicar que as reflexões
foram gestadas ao longo da carreira do artista plástico e acompanharam
a construção de uma obra singular. Retomando um percurso dentro da
arte contemporânea brasileira, desde o início da década de 1970, a
trajetória do poeta garante a consistência e a riqueza ensaística do
livro.
Convém, portanto, observar a conjugação de dois vetores de força que
confluem no conjunto de ensaios. Um, que corresponde à obra de um
artista que participa de um contexto em transformação e, outro, de
acompanhar o seu direcionamento teórico. Vale lembrar, como uma
referência para situar a produção de Almandrade dentro da história da
arte brasileira, o marco da sua acolhida por pessoas como Wladimir
Dias Pino e Hélio Oiticica, figuras da vanguarda que derivavam de uma
ampla vertente construtivista que se consolidava no país a partir da
experiência do Concretismo e do Neoconcretismo.
Não é por acaso que a capa do livro contém uma imagem do trabalho de
Almandrade que foi elogiado pelo próprio Hélio Oiticica. Com aquele,
objeto que inseria uma gilete dentro de uma garrafa, Almandrade
incorria no debate cortante a respeito da arte conceitual. Com essa
postura ele passou a observar uma posição consciente em relação a nova
objetividade e a procedimentos que estavam fora da tradição acadêmica.
Não é sem importância a sua formação como arquiteto, pois em
arquitetura o significado de cada elemento depende de seu uso e
experimentação singular. Todas as reflexões de Almandrade foram
pensados a partir de uma concepção que busca criar uma nova ordem
ambiental e inventar um novo jogo combinatório de formas e idéias.
Nesse caminho, o livro constitui uma excelente oportunidade para se
avaliar a coerência do pensamento construtivo de Almandrade.
Em Escritos sobre Arte, os textos foram colocados em quatro grandes
blocos, que procuraram conservar clara coerência com o sua proposta
intelectual. No livro, há um primeiro bloco teórico, com textos mais
abstratos que discutem conceitos empregados no campo da arte. Um dos
interesses maiores do livro é discutir e tornar visível alguns
princípios de composição, de explicitar a pergunta sobre a lógica de
composição que cada artefato viabiliza.
Há, na segunda parte do livro, análises e leituras das obras de vários
artistas. Almandrade é generoso em opinar sobre exposições e mostras,
de modo que vários nomes comparecem no livro fazendo um panorama dos
mais atualizados das artes da Bahia. São abordados artistas renomados
e artistas experimentais, pessoas a quem o autor ofereceu seu diálogo
e procurou respeitar os projetos. É valoroso notar o empenho do autor
em colocar, lado a lado, artistas conhecidos ao nível internacional e
nacional, tais como Picasso e Almílcar de Castro, com nomes de
personalidades baianas tais como Rubem Valentim ou Mário Cravo.
A terceira e a quarta parte contém ensaios que reintroduzem as maiores
polêmicas sustentadas pelo autor. Almandrade faz uma bem elaborada
crítica cultural, colocando em discussão os rumos da arte em Salvador.
São ensaios que analisam problemas concretos, que foram publicados em
jornal ou revistas, mas que conservam validade e atualidade. Seria
muito longo listar aqui o rol de questões debatidas, mas o conjunto
vai do debate do lugar do museu, tomando como caso de estudo o Museu
Feminino, até a crítica aos rumos da interferência da comunicação no
contexto do espaço público soteropolitano.
Todos esses campos o autor parece cruzar soberanamente com sua
solidão. Com sua figura individual, mas sem fugir do convívio com os
artistas de sua geração, Almandrade tornou-se um mestre, incorporando
a atitude do pesquisador. Almandrade assim procede com simplicidade,
conduzindo um olhar reflexivo que nunca se afasta dos sentimentos e da
cidadania política. Por levantar questões importantes, com sentido
crítico e com propósito de orientação dentro do campo artístico
baiano, deve ser lido com atenção "Escritos sobre Arte".
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ESCRITOS SOBRE ARTE
(arte, cidade e política cultural)
Autor - Almandrade
Editora - CISPOESIA - 140 p.
cispoesia@gmail.com
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